Sábado, 26 de Novembro de 2011

Autópsia de um Crime ou Sleuth


Há filmes feitos para pôr uma pessoa maluca. Gosto imenso dos que baralham as mentiras com a verdade, e que nos deixam a mente em turbilhão a tentar perceber onde está essa tal "realidade"; já que se trata de um filme, tire-se partido disso e faça-se este exercício na segurança do papel de espectador não participante. É nessa posição que melhor se aprecia esta confusão, pois, de qualquer forma, não existe qualquer realidade a ser descoberta; trata-se sempre de uma mentira, portanto, por mais que tentemos descortinar a verdade, jamais a descortinaremos; ela será aquela que quem inventou o filme, argumentista, realizador, seja quem for, desejar, inventar, lhe apetecer. Qualquer coisa é possível - gosto quando um filme subverte as nossas crenças e percepções ao ponto de sentirmos que qualquer coisa é possível. A sensação das fronteiras entre o real e o imaginado a diluírem-se progressivamente; às tantas, já nada se aproveita, já tudo é baralhação. Sleuth, ou a autópsia de um crime, é assim mesmo; um escritor e um actor (serão mesmo?) em busca de vingança. Duas mentes inventivas e habituadas a enfiar-se dentro de personagens que não existem.


Se desejardes ficar esclarecido (a) quanto a esta história, recomendo que não vejais este filme. :)




Chocolate




É fashion e sofisticado dizer-se que se gosta de chocolate, ora digam lá que não é? Gaja que é gaja, gosta de chocolate. Mas talvez este "maneirismo" tenha mesmo a sua base real. Dadas como são à depressão, graças à baralhação de ciclo hormonal que Deus Nosso Senhor lhes desenhou - o tipo não pode ser perfeito, tenham-me a santa paciência; vai-se a ver e Deus tem um pai, um Deus ainda mais perfeito que Deus; isto sou eu a especular, obviamente - como se poderiam elas dar ao luxo de não gostar de chocolate, essa coisa que contém coisas que fazem as pessoas ficar mais bem dispostas, nem que seja apenas por uns instantes. Nem que depois se fique chocolatodependente e acabe por agravar a depressão. Essa droga eu consigo perceber; sabe bem, é docinho. :) Outras já terei mais dificuldade, uma vez que tantas nem bem sabem, outras tantas nem pela boca entram. Pessoalmente, não sei se sou chocolatodependente, pois todos os dias tomo a minha dose, pelo que não me consigo aperceber de qualquer tipo de síndroma de abstinência.

E depois desta dissertação a respeito de chocolate, talvez fosse boa ideia regressar aos filmes, que o blog de trivialidades é ali ao lado. Vi este filme aos bocados. Estava na passadeira quando comecei e no puff a comer quando terminei (sintomático?), depois de muito boas referências a respeito e de o ter comprado por um preço relativamente acessível. 


E do filme, e da banda sonora? Deliciosos, ambos, não menos que chocolate! Ver este filme foi como deliciar-me com uma das melhores e mais deliciosas caixas de bombons. Que filme suave, que doçura de ambiente! Gostei muito de ver Juliette Binoche neste papel; as suas expressões, a sua atitude encaixam perfeitamente em Vianne. 


Depois há a questão da mensagem, que é tão bonita e profunda quanto verdadeira. Diz-nos Pére Henri, mesmo quase no fim do filme, que somos pessoas melhores não por aquilo que evitamos ou a que nos furtamos, mas por aquilo que vivemos, que fazemos e que conseguimos aceitar e incorporar nas nossas vidas. Não seria difícil sustentar estas afirmações na essência da maioria das religiões; não nas interpretações delas feitas, sempre influenciadas por interesses e desejos de manipulação aos mais diversos níveis. Não é, certamente, uma mensagem comummente abordada por padres e afins e em igrejas e afins, mas certamente deveria ser, isto, claro, no meu humilde e ignorante ponto de vista. :)





O filme é este, mas a música não é esta (que pirosada de música escolheram eles para este trailer; não tenho ideia nenhuma de o ter ouvido no filme...). A música é a que se segue:

Sábado, 5 de Novembro de 2011

As Serviçais






Há filmes que fazem chorar e filmes que emocionam. São experiências substancialmente distintas. A primeira, quando surge pura e simples, normalmente tem por base uma tentativa de manipulação de sentimentos, tantas vezes para mascarar a ausência de conteúdo de um filme. Mas os filmes que emocionam, e que podem fazer chorar porque emocionam - e não porque chocam - são filmes feitos com a presença necessária de um elemento chamado "sensibilidade"; que pode até ser algo arranjado, forjado, mas tem de o ser no sentido certo e com a devida subtileza. Os filmes que emocionam são os filmes que conseguem chegar suficientemente perto de nós para nos fazer sentir identificação, nos fazer confundir com a personagem que não é real, mas que está tão perto que conseguimos sentir os seus sentimentos, que não existem, mas que nós sentimos mesmo assim.

É assim este filme, as serviçais, e provavelmente também o livro, pelo qual nutro considerável curiosidade.

As Serviçais é um filme muito realista, que nos fala de assuntos difíceis de forma muito terna e doce. Um filme sobre a descriminação racial na América dos anos 60. Mas muito mais que isso: um filme acerca de algo tão precioso e belo como a liberdade individual e o amor. :)

Diz assim no sapo, acerca de "As Serviçais": "Três mulheres extraordinárias e muito diferentes no Mississippi durante os anos 60, que construíram uma improvável amizade em torno de um projecto secreto que quebra todas as regra sociais e as coloca a todas em risco. Desta inesperada aliança, emerge uma admirável irmandade, incutindo-lhes uma coragem para transcenderem os próprios limites, e a consciencialização de que às vezes esses limites existem para serem ultrapassados – mesmo que isso signifique que todos na cidade tenham de confrontar-se com os tempos de mudança." (Daqui.)

"Skeeter é uma brilhante e entusiasta recém-licenciada, aspirante a escritora, que foge à tendência das restantes raparigas do sul. Está mais interessada na sua carreira do que em casar, não obstante as suas peripécias com Stuart.

Aibileen aos 53 anos de idade já criou 17 crianças. É neste momento que descobre a sua voz e coragem ao desafiar as convenções sociais no início dos anos 60.
Minny conhecida tanto pelo seu mau feitio como pelos seus dotes culinários, ela é forte e dedicada. O seu medo de dizer o que pensa é cada vez menor e, agora, recusa-se a estar calada ou a ser invisível.

Desta inesperada aliança, emerge uma admirável irmandade, incutindo-lhes uma coragem para transcenderem os próprios limites, e a consciencialização de que às vezes esses limites existem para serem ultrapassados – mesmo que isso signifique que todos na cidade tenham de confrontar-se com os tempos de mudança, resultando na escrita de um livro onde são contadas, na primeira pessoa, as histórias de mulheres que, apesar de criarem as crianças das famílias brancas como se fossem suas, são ostracizadas devido à cor da sua pele." (Daqui.)










Sangue do Meu Sangue





Eis o que eu senti na altura (cito-me a mim mesma): " Apesar de ter gostado, continuo a achar que padece do problema clássico dos filmes portugueses: muito tempo para pouca acção. Para mim, continua a ser um problema. Mas achei a história base genial e insólita. Não posso falar muito, se não desvendo o mistério :) Acho, no entanto, que o nosso cinema tem bastante que andar; o recurso sistemático ao sexo e à violência acabam a deixar-me indagando-me se não haverá algum tipo de complexo de inferioridade e se os realizadores portugueses realmente acham que assim conseguem mais audiências. Gostei, mas não fica no coração."

E mais não digo! :)

As Aventuras de Tintin - O Segredo do Licorne




Mais um filme de Steven Spielberg; um filme com um ritmo estonteante! Transporta bem para a tela a "filosofia" inerente à BD; a mistura entre bonecos e seres humanos faz com que algumas inverosimilhanças pareçam mais evidentes ainda, mas depois lembramo-nos que se trata de uma adaptação de BD! Mas não consigo perceber por que demónios traduzem eles Licorne quando no filme toda a gente fala em Unicórnio... mistério! :)

Da Wikipédia acerca de Tintin: "As Aventuras de Tintim (no original em francês, Les aventures de Tintin) é o título de uma série de histórias em quadrinhos (banda desenhada, em Portugal) criada pelo autor belga Georges Prosper Remi, mais conhecido como Hergé, em 1929.

O herói das séries é o personagem epônimo Tintim, um jovem repórter e viajante belga. Ele é auxiliado em suas aventuras desde o início por seu fiel cão Milu (Milou, em francês).Os dois apareceram pela primeira vez em 10 de janeiro de 1929, no Le Petit Vingtième, um suplemento do jornal Le Vingtième Siècle destinado ao público infantil. Mais tarde, o elenco foi expandido com a adição do Capitão Haddock, entre outros personagens pitorescos.

Esta série de sucesso era publicada em semanários e, ao término de cada história, os quadrinhos eram reunidos em livros (23 no total, em 2008). Ela ganhou uma revista própria, de grande tiragem (Le Journal de Tintin) e foi adaptada para versões animadas, para o teatro e também para o cinema. As séries são uma das histórias em quadrinhos européias mais populares do século XX, sendo traduzidas para mais de 50 línguas e tendo mais de 200 milhões de cópias vendidas.

As séries de histórias em quadrinhos são há muito admiradas por seus desenhos claros e expressivos, com o estilo ligne claire, típico de Hergé. O autor emprega enredos bem elaborados de gêneros variados: aventuras swashbuckler com elementos de fantasia; mistério; espionagem; e ficção científica. As histórias nas séries de Tintim caracterizam-se tradicionalmente pelo humor em cenas de ação, o que equivale em álbuns posteriores à sofisticada sátira e comentários de cunho político-cultural" (Daqui.)

The Surrogates



Vi-o há já bastante tempo no cinema, mas relembrei-me dele quando deu o outro dia na TV. Gostei muito dos efeitos, da ideia principal; um filme com muita acção mas não excessivamente violento. Gostei sobretudo da mensagem principal. Podem dizer-me que é algo banal, mas eu continuoa a achar que há mensagens que são suficientemente interessantes para serem repetidas em diversos contextos. A questão essencial nem é a mensagem em si, mas a forma como é transmitida. Claro que a ideia de uma sociedade dominada por máquinas onde o contacto humano perdeu todo o valor é antiga e algo catastrófica; não são as tecnologias que nos tornam frios e banalizam as relações humanas, mas sim o triunfo do materialismo e da superficialidade. Um filme de acção com muita mensagem. Ficção Científica como eu gosto. Quanto a mim, vale a pena ver! :)






Mel (Bal)


Amei com todo o meu coração. Este filme parece uma sequência de pinturas impressionistas, retratando cenas dos dias de hoje, numa localidade rural da Turquia, na vida de um menininho muito engraçado que faz soar um guizinho de cada vez que se mexe (e mesmo quando não o faz). Um filme doce como o mel, conta a história de um menino filho de um apicultor, se é que se pode chamar assim, pois o ídolo de Yussuf (o menino) era o seu pai, que tinha por profissão subir a árvores altissimas e colocar colmeias na esperança de que elas para ali viesse fabricar o seu mel. Achei muito interessante esta questão; ali, não são os humanos que escolhem o sítio para onde as abelhas irão; ali são os humanos que levam as suas colmeias até onde as abelhas estão, ou onde prevêem que elas poderão ir. Um filme repleto de doçura, imagens magníficas quer dentro quer fora de casa. A história (ou quase) de um menino que fala muito baixinho e que queria muito saber ler bem, mas que se atrapalha todo quando tem de ler alto na aula. Yussuf  acaba por perder o pai, mas este filme faz parte de uma trilogia e tem, de alguma forma, continuação...

Eis uma opinião que encontrei e que achei interessante:

"Primeira parte de uma trilogia construída ao contrário, 'Mel' venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2010


De vez em quando aparece um filme que nos relembra que o cinema pode ser uma nobre arte. É o caso de Mel, do cineasta turco Semih Kaplanoglu (n. 1963). Vencedor do Urso de Ouro na penúltima edição do Festival de Berlim, este filme constitui a última parte de um tríptico autobiográfico a que o realizador deu o nome de ‘Trilogia de Yusuf”, e que explora diferentes fases da vida de uma mesma personagem. Mas fá-lo, porém, numa ordem cronológica invertida, ou seja, começando pela idade adulta de Yusuf (em Egg, de 2007), passando pelos seus tempos de estudante universitário (em MilK, de 2008), e terminando na infância deste. Os três filmes têm nomes de alimentos de origem animal, mas, a avaliar por Mel, é de um autêntico alimento espiritual que se trata.


Kaplanoglu definiu o estilo do seu cinema como “realismo espiritual”. Um termo perfeito para designar um cinema que, sendo pura e simplesmente realista, não o é todavia num sentido literal, banal ou empobrecedor. Trata-se aqui de um realismo sublimado, espiritualizado, que encontra na realidade (e sobretudo no real natural) uma espiritualidade imanente, em boa parte decorrente de um olhar poético sobre as coisas. É uma poética da simplicidade que se desenha neste filme que, afinal, é mais do que um filme: é um milagre, uma epifania cinemática, um sopro de ar puríssimo.


Numa remota região do Mar Negro, Yusuf (Bora Altas), um tímido e frágil menino de seis anos, que se encontra na primeira classe, tem dificuldades em ler diante dos seus colegas de turma (é acometido de uma súbita gaguez, porventura de origem emocional, de cada vez que tem de o fazer). Porém, em casa, consegue quebrar esse bloqueio verbal, sobretudo junto do pai – mas a única forma que encontra para contornar a sua inibição é sussurrar as palavras ao ouvido deste, com quem tem uma ligação especial. Todavia, quando este, que é apicultor, desaparece nas entranhas de uma floresta aonde foi armar as suas colmeias, Yusuf deixa de falar, o que acentua ainda mais a ansiedade da sua mãe.


O lugar de Mel na ‘Trilogia de Yusuf’ é similar ao de Pather Panchali na ‘Trilogia de Apu’, de Satyajit Ray. Mas, no caso desta “prequela” de Semih Kaplanoglu, são traçadas as origens de uma alma que, futuramente, e em larga medida devido à sua relação conturbada com as palavras, se tornará poeta. Vivemos sempre muito em função dos que nos falta, e no caso de Yusuf, como aliás na maior parte dos casos, é da superação de uma insuficiência que nasce a virtude. Não sabemos até que ponto a Trilogia de Yusuf é autobiográfica; sabemos apenas que Kaplanoglu é um poeta das imagens e que Mel é um autêntico maná cinematográfico.

(texto originalmente publicado na revista NS do Diário de Notícias)


MEL (BAL)
Realização: Semih Kaplanoglu
Intérpretes: Boras Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen
Género: Drama
Origem: (Turquia/Alemanha, 2010)
Distribuição: Clap Filmes
Classificação: (10/10)" (Daqui.)






Pelo que percebi, no Brazil o título deste filme foi traduzido para "Um Doce Olhar"; eis o que encontrei a este respeito:

"A primeira cena de Um Doce Olhar (Bal, 2010) resume bem o que veremos a seguir. Nela, Yakup (Erdal Beşikçioğlu) e seu burro aparecem lá longe, no meio da floresta, e vêm andando em direção à câmera. Em determinado momento ele sai do quadro, passando por trás da câmera, enquanto o equino continua se movendo até que apenas o seu traseiro fica presente em um canto da tela. Chega a ser engraçado tamanho naturalismo.


Yakup, vamos descobrir depois, é um apicultor da área montanhosa da Turquia que sofre com o sumiço de suas abelhas e parte para o meio da floresta atrás de novas colmeias e mel, daí o nome original do filme, Bal, que quer dizer mel em turco. O projeto é o terceiro da trilogia de Yussuf, que foi feita em ordem cronológica inversa. Cada um dos filmes foi exibido em um grande festival europeu. Yumurta (Ovo) estreou em Cannes em 2007. Süt (Leite) teve sessões em Veneza, em 2008. E Bal acabou ganhando o Urso de Ouro em Berlim neste ano.

Um Doce Olhar é o típico filme de festival, lento, contemplativo, econômico. Praticamente não há trilha sonora que não seja o barulho do vento batendo nas árvores, a água da chuva nos telhados ou passos do menino Yussuf (Bora Altaş) andando pela lama no seu caminho para a escola. Poucos também são os movimentos de câmera, que prefere se manter parada pegando o cenário real a acompanhar os personagens.


Mas o filme tem Yussuf, um menino em idade pré-escolar, aprendendo a ler e escrever. O diretor Semih Kaplanoglu, que já trabalhou como publicitário, sabe o quanto uma criança pode amolecer os corações do público - e de um júri de festival - e acertou em cheio ao escolher o menino Bora Altaş. O garoto lança orgulhosos olhares em direção ao seu pai, ignora os apelos de sua mãe e sofre com veracidade impressionante na hora da leitura da escola, cercado por risos dos colegas da classe que o levam a gagueira, silêncio e solidão.

O filme não se apega muito a simbolismos, sendo bastante transparente no quanto um simples copo de leite pode significar o amadurecimento de uma criança. E ao mesmo tempo também não se prende apenas ao mundo real, mostrando sonhos e quanto eles são importantes para o pequeno Yussuf e seu pai, a ponto de não deverem ser contados em voz alta, mas apenas sussurrados ao ouvido um do outro.

Kaplanoglu, que trabalha como produtor, diretor e roteirista, começou a pensar na trilogia a partir do seu segundo capítulo (Leite), traçando então o que aconteceria no seu futuro (Ovo) e imaginando como teria sido a sua infância (Mel). E vendo agora este seu último filme, o que fica é a vontade de continuar acompanhando toda a trajetória do personagem. Esperemos agora que a distribuidora compre os direitos dos outros filmes de Kaplanoglu, mesmo que seja para vê-los em DVD." (Daqui.)