
Amei com todo o meu coração. Este filme parece uma sequência de pinturas impressionistas, retratando cenas dos dias de hoje, numa localidade rural da Turquia, na vida de um menininho muito engraçado que faz soar um guizinho de cada vez que se mexe (e mesmo quando não o faz). Um filme doce como o mel, conta a história de um menino filho de um apicultor, se é que se pode chamar assim, pois o ídolo de Yussuf (o menino) era o seu pai, que tinha por profissão subir a árvores altissimas e colocar colmeias na esperança de que elas para ali viesse fabricar o seu mel. Achei muito interessante esta questão; ali, não são os humanos que escolhem o sítio para onde as abelhas irão; ali são os humanos que levam as suas colmeias até onde as abelhas estão, ou onde prevêem que elas poderão ir. Um filme repleto de doçura, imagens magníficas quer dentro quer fora de casa. A história (ou quase) de um menino que fala muito baixinho e que queria muito saber ler bem, mas que se atrapalha todo quando tem de ler alto na aula. Yussuf acaba por perder o pai, mas este filme faz parte de uma trilogia e tem, de alguma forma, continuação...
Eis uma opinião que encontrei e que achei interessante:
"Primeira parte de uma trilogia construída ao contrário, 'Mel' venceu o Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2010
De vez em quando aparece um filme que nos relembra que o cinema pode ser uma nobre arte. É o caso de Mel, do cineasta turco Semih Kaplanoglu (n. 1963). Vencedor do Urso de Ouro na penúltima edição do Festival de Berlim, este filme constitui a última parte de um tríptico autobiográfico a que o realizador deu o nome de ‘Trilogia de Yusuf”, e que explora diferentes fases da vida de uma mesma personagem. Mas fá-lo, porém, numa ordem cronológica invertida, ou seja, começando pela idade adulta de Yusuf (em Egg, de 2007), passando pelos seus tempos de estudante universitário (em MilK, de 2008), e terminando na infância deste. Os três filmes têm nomes de alimentos de origem animal, mas, a avaliar por Mel, é de um autêntico alimento espiritual que se trata.
Kaplanoglu definiu o estilo do seu cinema como “realismo espiritual”. Um termo perfeito para designar um cinema que, sendo pura e simplesmente realista, não o é todavia num sentido literal, banal ou empobrecedor. Trata-se aqui de um realismo sublimado, espiritualizado, que encontra na realidade (e sobretudo no real natural) uma espiritualidade imanente, em boa parte decorrente de um olhar poético sobre as coisas. É uma poética da simplicidade que se desenha neste filme que, afinal, é mais do que um filme: é um milagre, uma epifania cinemática, um sopro de ar puríssimo.
Numa remota região do Mar Negro, Yusuf (Bora Altas), um tímido e frágil menino de seis anos, que se encontra na primeira classe, tem dificuldades em ler diante dos seus colegas de turma (é acometido de uma súbita gaguez, porventura de origem emocional, de cada vez que tem de o fazer). Porém, em casa, consegue quebrar esse bloqueio verbal, sobretudo junto do pai – mas a única forma que encontra para contornar a sua inibição é sussurrar as palavras ao ouvido deste, com quem tem uma ligação especial. Todavia, quando este, que é apicultor, desaparece nas entranhas de uma floresta aonde foi armar as suas colmeias, Yusuf deixa de falar, o que acentua ainda mais a ansiedade da sua mãe.
O lugar de Mel na ‘Trilogia de Yusuf’ é similar ao de Pather Panchali na ‘Trilogia de Apu’, de Satyajit Ray. Mas, no caso desta “prequela” de Semih Kaplanoglu, são traçadas as origens de uma alma que, futuramente, e em larga medida devido à sua relação conturbada com as palavras, se tornará poeta. Vivemos sempre muito em função dos que nos falta, e no caso de Yusuf, como aliás na maior parte dos casos, é da superação de uma insuficiência que nasce a virtude. Não sabemos até que ponto a Trilogia de Yusuf é autobiográfica; sabemos apenas que Kaplanoglu é um poeta das imagens e que Mel é um autêntico maná cinematográfico.
(texto originalmente publicado na revista NS do Diário de Notícias)
MEL (BAL)
Realização: Semih Kaplanoglu
Intérpretes: Boras Altas, Erdal Besikçioglu, Tülin Özen
Género: Drama
Origem: (Turquia/Alemanha, 2010)
Distribuição: Clap Filmes
Classificação: (10/10)" (
Daqui.)
Pelo que percebi, no Brazil o título deste filme foi traduzido para "Um Doce Olhar"; eis o que encontrei a este respeito:
"A primeira cena de Um Doce Olhar (Bal, 2010) resume bem o que veremos a seguir. Nela, Yakup (Erdal Beşikçioğlu) e seu burro aparecem lá longe, no meio da floresta, e vêm andando em direção à câmera. Em determinado momento ele sai do quadro, passando por trás da câmera, enquanto o equino continua se movendo até que apenas o seu traseiro fica presente em um canto da tela. Chega a ser engraçado tamanho naturalismo.
Yakup, vamos descobrir depois, é um apicultor da área montanhosa da Turquia que sofre com o sumiço de suas abelhas e parte para o meio da floresta atrás de novas colmeias e mel, daí o nome original do filme, Bal, que quer dizer mel em turco. O projeto é o terceiro da trilogia de Yussuf, que foi feita em ordem cronológica inversa. Cada um dos filmes foi exibido em um grande festival europeu. Yumurta (Ovo) estreou em Cannes em 2007. Süt (Leite) teve sessões em Veneza, em 2008. E Bal acabou ganhando o Urso de Ouro em Berlim neste ano.
Um Doce Olhar é o típico filme de festival, lento, contemplativo, econômico. Praticamente não há trilha sonora que não seja o barulho do vento batendo nas árvores, a água da chuva nos telhados ou passos do menino Yussuf (Bora Altaş) andando pela lama no seu caminho para a escola. Poucos também são os movimentos de câmera, que prefere se manter parada pegando o cenário real a acompanhar os personagens.
Mas o filme tem Yussuf, um menino em idade pré-escolar, aprendendo a ler e escrever. O diretor Semih Kaplanoglu, que já trabalhou como publicitário, sabe o quanto uma criança pode amolecer os corações do público - e de um júri de festival - e acertou em cheio ao escolher o menino Bora Altaş. O garoto lança orgulhosos olhares em direção ao seu pai, ignora os apelos de sua mãe e sofre com veracidade impressionante na hora da leitura da escola, cercado por risos dos colegas da classe que o levam a gagueira, silêncio e solidão.
O filme não se apega muito a simbolismos, sendo bastante transparente no quanto um simples copo de leite pode significar o amadurecimento de uma criança. E ao mesmo tempo também não se prende apenas ao mundo real, mostrando sonhos e quanto eles são importantes para o pequeno Yussuf e seu pai, a ponto de não deverem ser contados em voz alta, mas apenas sussurrados ao ouvido um do outro.
Kaplanoglu, que trabalha como produtor, diretor e roteirista, começou a pensar na trilogia a partir do seu segundo capítulo (Leite), traçando então o que aconteceria no seu futuro (Ovo) e imaginando como teria sido a sua infância (Mel). E vendo agora este seu último filme, o que fica é a vontade de continuar acompanhando toda a trajetória do personagem. Esperemos agora que a distribuidora compre os direitos dos outros filmes de Kaplanoglu, mesmo que seja para vê-los em DVD." (
Daqui.)